Depoimento sobre Nelson Pereira dos Santos na ABL

Em 2008, a Academia Brasileira de Letras realizou uma mesa-redonda em homenagem aos 80 anos do Acadêmico Nelson Pereira dos Santos, cineasta e um dos fundadores do movimento Cinema Novo.

 
Atuou por 60 anos no cinema nacional em diversas obras, incluindo as produções e coproduções com a VideoFilmes como: Casa Grande&Senzala (2000), Meu Cumpadre Zé Keti (2001), Raízes do Brasil (2004), Brasília 18% (2006), A Luz do Tom (2012).
 
Nelson vivem por 90 anos tendo falecido em 2018, 10 anos após o evento na ABL, que contou com palestra de Cacá Diegues, João Paulo dos Reis Velloso, Luiz Carlos Barreto e Walter Salles.
 
Leia abaixo o depoimento de Walter sobre Nelson, proferido naquela ocasião:
 

“Excelentíssimos membros da Academia Brasileira de Letras, boa tarde.

Estar aqui para festejar os 80 anos do mestre e, é claro, imortal Nelson Pereira dos Santos é uma enorme honra.

Jorge Luis Borges dizia que o seu maior prazer na literatura era o de dar nome àquilo que ainda não havia sido nomeado. Nelson nomeou o moderno cinema brasileiro. “Rio 40 Graus”, que ele escreveu e dirigiu em 1955, lançou as sementes do movimento Cinema Novista, do qual Nelson é co-fundador junto com Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, Luiz Carlos Barreto e tantos outros brilhantes cineastas.

“Rio 40 Graus” foi proibido pela censura da época sob a alegação de que no Rio de Janeiro, nunca fazia 40 graus…, mas não adiantou tapar o termômetro com a peneira: com a câmera, Nelson filmou um Brasil que ainda não havia sido filmado, e assim ofereceu um novo reflexo de nós mesmos. Não é exagero dizer que com “Rio 40 Graus”, nada mais seria como antes- não só no cinema, mas também na cultura brasileira.

Como outro mestre, Guimaraes Rosa, que ocupou nessa casa a cadeira dois, Nelson cristalizou uma escuta, incorporou um não-dito à nossa realidade.

Construiu uma obra vendo e dividindo o que via com os outros, sem jamais tentar nos catequizar. Sua obra é essencialmente inclusiva e generosa.

Depois de “Rio 40 Graus” e em filmes como “Rio Zona Norte”, “Vidas Secas”, “Como era Gostoso o meu francês”, “O Amuleto de Ogum”, “A Terceira Margem do Rio” e tantos outros, Nelson foi abrindo novas janelas e enriquecendo as possibilidades de entendimento dessa complexa matéria que é a nossa identidade nacional, agora projetada na tela do cinema.

Graças a Nelson e aos seus companheiros de geração, o cinema passou a participar da invenção desse país original que se buscava no final dos anos 50 e no início da década de 60. Foi quando surgiu uma nova arquitetura com Niemeyer e Lucio Costa, uma nova música, a Bossa Nova, foi quando a Literatura e a Poesia viveram um momento extraordinário. O Cinema Novo chegou para cumprir sua parte nesse movimento que foi interrompido em 64 e sobretudo 68.

O fato de que Nelson pertença hoje à Academia Brasileira de Letras faz sentido. Dos cineastas brasileiros, Nelson é certamente aquele que dialogou de forma mais vertical com a literatura brasileira, adaptando Graciliano Ramos ( os excepcionais “Vidas Secas” e “Memórias do Cárcere”), Machado de Assis ( “Azyllo muito Louco”, livremente inspirado do conto “O Alienista”), Jorge Amado (“Tenda dos Milagres” e “Jubiabá”) , Nelson Rodrigues (“Boca de Ouro”) e Guimaraes Rosa (“A Terceira Margem do Rio”).

Em “O Chão da Palavra”, o livro que o crítico e pensador José Carlos Avellar escreveu sobre a relação entre cinema e literatura no Brasil, o autor sugere que se “Vidas Secas”, o filme, é uma obra-prima, isso se deve ao fato de que Nelson vai ao que ele chama de “o invisível do texto” de Graciliano Ramos.Ou seja, vai “além daquilo que nele se pode ver ou ler. Vai ao impulso gerador da obra”. Os senhores que já tiveram alguma obra adaptada aquí devem saber como esse milagre é raro.

Lendo o “Vidas Secas” de Graciliano, tudo é essência- não há uma palavra a mais. Vendo o filme do Nelson, tudo é essência- não há uma imagem à mais.

Vou abrir um parêntesis aqui, se vocês me permitem, para dividir uma piada que se conta com frequência nas rodas de cinema. Dois ratinhos entram numa cinemateca. Abrem uma lata de filme, começam a mastigar o negativo e logo o cospem dizendo “que droga, mais uma vez o livro era muito melhor”!!!

Pois bem: se tivessem escolhido uma lata de um filme de Nelson Pereira dos Santos, os ratinhos teriam uma vida muito mais prazerosa.

“Memórias do Cárcere” é outro exemplo de adaptação magistral, em que Nelson não verte o depoimento pessoal de Graciliano ao pé da letra, mas procura sua melhor tradução. Como lembra Avellar, o cárcere do filme não é apenas o de 1936 – são todos os cárceres que herdamos desde o colonialismo que estão ali representados. O filme começa e acaba com o Hino Nacional. Só que ele soa de forma diversa. “Não canta a grandeza de pátria”, mas re-define uma outra nação possível – aquela composta de personagens que se chamam Gaúcho, Cubano, Mário, e que se transformam pouco a pouco em co-autores da história que Graciliano está contando.

Antes de acabar, eu queria falar de outra face do Nelson, a do humanista que pensa não só o cinema mas também o país. Esse diálogo que Nelson tem com a literatura em seus filmes de ficção, ele também o aprofundou como documentarista, revisitando Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e mais recentemente Tom Jobim. Esses documentários são tão límpidos quanto seus longas-metragens. Como dizia outro mestre, o cineasta francês Robert Bresson, “quando um violino é suficiente, pra que utilizar dois”?

Tive o privilégio de ver alguns desses documentários tomarem corpo, por que eles foram feitos em associação entre a Regina Filmes do Nelson e a nossa produtora. Tudo é feito com tamanha clareza e aparente simplicidade que o impossível se torna de repente alcançável. Aqui entre nós, o problema que isso cria não é invejável. Se você colaborar com alguém que fez parte da equipe do Nelson, está perdido. Vai invariavelmente ouvir algo como “ahhh, como era bom trabalhar com o Nelson…”

Vou ter que me desculpar por terminar com uma reclamação: depois que Nelson se tornou assíduo frequentador do chá das 5 aqui na Academia, não o vemos tão frequentemente na produtora. Por um lado, é uma pena. Mas sabê-lo imortal faz a gente aceitar um pouco melhor as saudades.

Nelson: muitos parabéns e feliz aniversário!

Walter Salles